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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Pedras...





Pedras
Formas
Texturas
Universos


Concha Rousia

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Na noite




Gosto do transito
os carros passam
              por minha olhada
tal que barcos
              num mar de asfalto
              que me não leva


Concha Rousia

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Pensamentos quânticos II




Hoje decidi não sentir saudade... Olhei dentro de mim pra encontrá-la e expulsá-la... mas ela fugiu e ocultou-se... Corri, busquei mas não a achei dentro. Então decidi sair fora, sair de mim, olhar o mundo buscar nele...

O primeiro que veio à minha cabeça foste tu meu amor, foi o muito que eu sinto esta distância, e aí nesse instante senti como a saudade se coava para dentro de mim, ocupando-me completamente...

Aí eu compreendi a nossa dança:
                                              quando eu saio ela entra.



Concha Rousia

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Saudades de ti




É tão grande esta saudade...
                      ...que hoje o espelho não me reconheceu.


Concha Rousia

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Pensamentos solúveis VI




"Tudo o que me falta me sobra"

 Concha Rousia

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O que é o amor?



O amor é o mais forte
                que há em nós
                o mais irracional
                o mais grande
                o mais absurdo

O amor é uma fé cega
               no que sentimos
               ou que nos sente
que nos toca desde dentro

Ele é capaz de contradizer
                           o mundo
com a sua simples verdade
e achar sempre o caminho

Tu lutas
          com todos os cinco sentidos
          com o escudo imenso da razão
e ele sozinho
com seus olhos fechados
vence-te em todas as batalhas,

quanto maior a tua resistência
mais forte ele se faz...

Ocupa o nosso universo
fazendo-nos infinitos
                     enigmáticos
                     para nós próprios

Ele realmente nos faz
               sentir Deus
mesmo sendo Ateus

O amor é realmente...
O amor é...
eu não sei o que é o amor



Concha Rousia

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O Tempo e nós...


      (Obra do artista plástico Jayme Filho, São Paulo, Brasil)




Hoje recebi uma visita do tempo. Observei como ele se mirava em dous espelhos:


           um era eterno
           o outro era eu...


Compreendi que cada um de nós, cada ser é um espelho do tempo
em cada um ele se mostra de um modo diferente, adotando infinitas formas, infinitos rostos...


No espelho eterno o tempo não tem rosto, não tem físico medível, ele nem fica nem passa, ele permanece.


Compreendi que tudo que tinha pensado até hoje sobre o meu relacionamento com o tempo estava errado. Não é que eu tenha um tempo, medido, que vá ser meu... Não, a realidade é que o tempo me tem a mim, me usa a mim, se olha em mim, como em toda forma de matéria, viva ou inerte...


O tempo hoje contou-me que verdadeiramente ele é Deus.

Concha Rousia

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Cem Vaga-Lumes: 56




Gotas no vidro
desenham letras mudas
no olhar do gato


Concha Rousia

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Viagens no tempo



Compra um bilhete para
                 num futuro
                                viajar ao teu passado:
                                                              Escreve!! 


Concha Rousia 

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Dos dilemas do ser


                            (Carla Monti - Colpo di vento, Milan)

Sou o vento
nasci para voar
para estar
              em todo o lado
              e em nenhum
                      ao mesmo tempo

Porque nenhum
                      pode conter-me
           nenhum
                      pode reter-me

Por isso
           meu amor
                         tu
                            não me prendas... 



Concha Rousia

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Dança comigo



De olhos fechados e sentidos abertos
                             para tocar o infinito


nossos corpos colados um no outro...
vestidos polo ar que nos abraça
não permitindo nós nos separar,
contornando o 'uno' que formamos
com o ocaso dum dia qualquer...


E tu cantas...
mornas notas acariciam minha pele
que se sonha flor de eterna primavera


Tu cantas...
e eu deixo-me perder em teu sotaque
inundada de luz na penumbra da sala...
a lua aguarda para nos vir cobrir
com seus fios de prata até a madrugada...


A janela aberta a falar da brisa
húmida e quente...
de um mar salgado e bravo...
que se move dentro e fora
sussurrando o sonho eterno
de um tempo para nós dous
um tempo que voa nas assas
secretas de borboletas azuis


Tu cantas...
e a primavera desabrocha
as pétalas do meu corpo
que pressente o verão em ti
prestes a chegar...




Dançamos quietos...
visitando, sem nos mover de lugar,
cada recanto de nós, do nosso interior
hoje abarcável infinito...


Dançamos...
com a música do mar
a voar em liberdade por cima
de todas as realidades impossíveis


E tu cantas...
E tu cantas...

Concha Rousia

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

ILUZIONISTA






A luz entrou hoje com força
obrigando-me a ir à janela...
para ver como ela recorta
                                    os carvalhos
                                    as montanhas
                                    os vales e
                                    os pássaros


A luz hoje falava uma língua de lume
                                        a queimar o ar
                                        e acender fogueiras
                                        nos meus olhos


Vinha envolta em seu manto transparente
                                          pra me enganar
                                          pra me fazer ver...


A luz é a grande iluzionista
                                    no teatro da vida

Concha Rousia

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Pensamentos quânticos I




Por que sou eu ateia ?????

'Sou ateia
          porque Deus
                          foi feito a imagem e semelhança
                                                                   do homem'



Concha Rousia

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Os Sentidos na Terra (Do desespero)


                (Obra do artista plástico Jesús Lorenzo)


Meus pais morreram
                e eu soube onde enterrá-los


Sabia de sempre
               onde descansam os pais deles
               os que eu nem cheguei a conhecer


Meus pais eram velhos
                       eram gente doutro tempo
                       que eu tive que despedir...


Aprendi a levar-lhes flores
            a visita-los
            a usar seus sapatos
            a aprender de novo os caminhos
logo de ficar desancorada
                                    à deriva
                                              com terra nos olhos...
               
                      ...quando morreram meus pais...


                    ...eu soube como seguir a respirar...


Que eu não sei é
                      enterrar o meu país e seguir viva...


Que eu não sei é
                      respirar com terra na boca...


Concha Rousia 



                (Obra do artista plástico Jesús Lorenzo)


terça-feira, 24 de novembro de 2009

AMANHECER


                                                                  (imagem google)


Ergueu-se o poema
Tocou meus beiços
e eu dei-lhe
    ...a minha voz...


Senti ir-se de mim
uma dor antiga e
a meus olhos chegou
a beleza do mundo
que não via...


Concha Rousia

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

ACORDAR DOS SONHOS (Dos Dilemas do Ser)

 
                                                (imagem google)

Quero abraçar-me a ti
                           dentro dum sonho


Tu vindo a caminho
                           eu indo...


Abraçar-nos com a mirada
incorporando a nós tudo
                            que nos separa
                            e então nos une


Fechar os olhos e
                       abraçar-te
                       abraçar-me em ti


Pertencer ao Universo dos teus braços
Entregar-me ao calor
            com que proteges meus segredos


Sentir a minha alma passar para o teu corpo
Senti-la ir-se
                 para o teu lado da pele
e saber que virá de volta
                                  sendo tua
sendo uma
                 inseparável
                                  da tua...
                          
que entra em mim
               acordando sonhos passados
               e o saber de que nem tempo
                                        nem espaço
poderão já manter-nos apartados.


Concha Rousia

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Regresso de cabo não


(inspirado em 'Regresso a Arder' de Carlos Quiroga, poeta da Galiza)


A poesia é  despir-se ante os outros
                                           quando não estão
é um intento de apagar as feridas que nos delatam


A poesia é desvendar a existência do des-real
é tirar as telas do emburulho que eternamente nos oculta


A poesia é dissimulo
                             é raiva disfarçada de anima em pena
Mas também é pena
é pena sem espaço no infinito do espírito


A poesia é fame dum deus que não existe
e é fartura de comer sempre o pão da morte


A poesia é assomar-se à porta do abismo
sabendo que se calhar é uma miragem


A poesia é armadilha
             é deixares-te ver enquanto te escondes


A poesia é soidade que aprendeu a acompanhar-nos
é janela para as bágoas dum pranto silandeiro
                       numa guerra de prantos que nos aboujam


A poesia sou eu disfarçada para ver-te andar na minha procura


A poesia é sexo
                      é cavalgar com a ânsia do amante
                      até a inapetência e o silêncio


A poesia é a destilação do veneno letal da existência
ela é quem fica
                      quem nos vive
                                            quem nos sobrevive
A poesia é dona
A poesia é Deus.


Concha Rousia

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Encontro Casual e Inesperado com Macbeth



   (Trás a leitura de 'A Vida Extrema' de Mário Herrero, poeta da Galiza)


Não posso aceitar que te tornes estátua
foi a tua mão que me guiou adentro desta selva


Mas já agora temos de seguir
não vês mover as árvores?


Temos de seguir para não ficarmos engolidos


Sim
      essas das raízes que caminham
      essas que tem seiva vermelha
                              e talvez quente
e tem olhos
e cospem ventos com palavras alheias
assassinando o nosso silêncio
esse que tu tanto necessitas
esse que te nomeia com essências que só tu reconheces


E agora abouja-te o barulho das suas tripas esfomeadas
e tu premes os ouvidos
                         para poder seguir escutando o teu silêncio
                                                       que te acaricia o corpo
                                                       que te faz fechar os olhos
                                                       e te abre ao mundo
e já nada poderá contigo
neste ponto
                  no que olhou dentro ti o Universo


Concha Rousia

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Nas beiras do ser


    (Imagem : Foto de Nilcéia de Almeida A. B. Pereira, Brasil)


Eu habito num recanto de mim
do que não tenho mapas
mas que sei
                  mais ou menos
                                        onde fica


Realmente eu sou nômada
sou vagamundo que perdeu
o endereço da sua morada
mas lembra que ela existe


Sempre soube reconhecer
quando me achava perto
mas apenas uma vez
estive
          realmente
                         ( dentro )


Lembro que foi maravilhoso
mesmo não recordando nada
lembro que foi assim único


Ó se a memória se pudesse
prender no fio das emoções...
escreveria eu agora meu canto
mas como traduzir em palavras
o inenarrável...   ?


Já até pensei que fosse sonho


Sei que tu estavas comigo
isso é o que mais me choca
para um vez que consigo
visitar o lugar onde realmente
habito...
             tu estavas comigo...


...ou eu pensei que estavas
que sem ser a mesma cousa
teve o mesmo efeito
pena não saber mais
                        onde tu habitas
para te perguntar
                        se sabes o caminho
se reparaste na entrada


Eu nem sei se havia portas
não lembro ter que abrir nada                         
de repente foi como se o mundo
fosse ‘um’ consigo próprio
e com ‘nós dois’ dentro...
a sensação durou apenas
uma ínfima eternidade
que passou logo para
                           se permanecer


Já pensei em perguntar-te
mas,
      para além de não saber
                            onde tu moras
sei que estás adormecido
e não quero incomodar-te
talvez fosse interromper
                              um belo sonho


Eu vou esperar...


Esperar, eu sei que sei
e a quem sabe esperar
tudo um dia lhe alcança
e eu ainda espero que
                             o lugar
onde a minha verdadeira eu
                                        habita
um dia apareça
                     a me vestir por dentro


Talvez então tu venhas de visita
sei que em qualquer outro lugar
tu não me reconhecerias...
esperarei
sentar-me-ei aqui
                           onde imagino
ser a beira do meu ‘ser’
                               e aguardarei.

Concha Rousia

terça-feira, 17 de novembro de 2009

NEREA




  (...outra prendinha para minha filha no seu dia de anos...)






  NEREA

  N
oite

  E strelecida
  R umor de
  E ternas
  A lvas


  Concha Rousia




  Recebido do amigo quis quid quomodo:


 NEREA


 N ascida de
 E ternas
 R aízes de
 E xcelência e
 A ltivez


segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Faz dez anos...








     16-11-1999


     Nasceu Nerea
     e a mãe que eu ia ser
     nasceu com ela



    Concha Rousia




Hoje...
Nerea acordou sozinha e apareceu na sala onde eu sempre estou a escrever de manhã...
- Hoje acordei sozinha...
- Senta-te aqui...
Nerea sorri e deixa-se guiar numa visita virtual por 10 cidades Europeias... (uma por cada ano seu, em 3 delas celebrou ela anos passados.. Berlin, Barcelona e Paris)
Hoje há algo novo em nós duas e as duas o sabemos...
Li para ela o pequeno poema que hoje lhe escrevera.
...
- Não sei se o entendo mas sinto que tem coração... (sorri Nerea :)


E eu percebi em seus olhos, seus indefiníveis olhos, a infinita beleza do mundo, e ontem ficou a ser um passado remoto...

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Dos dilemas do ser


    (Foto de Nerea: Na sua primeira visita às Fragas do Eume, primavera 2009)

Dentro de mim há um rio
um rio que corre
                      contracorrente


É um rio rebelde
que não sabe aonde ir
mas que já aprendeu
aonde não quer que vá


Ele
    de todos os meus rios
é ao que dou mais atenção
é o meu mais querido...


Por vezes nem sei o que sinto
é tanta a confusão
              que este rio me causa


Passo a vida a pensar nele
por vezes até o confundo comigo
outras me cansa
          me esgota
          me farta
mas sempre sempre
          me vive.

Concha Rousia

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Para Nerea, minha filha de 9 anos.
















 

Sobre o piano
os dedos de Nerea
a nascer música


Concha Rousia

domingo, 8 de novembro de 2009

Mundos


                                             (imagem google)

Quanto mais amo o meu mundo
              
  mais amo o vosso
                   mais amo os outros todos. 



Concha Rousia

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Poema mínimo


                                            (imagem google)

Bate em mim
                  o coração do mundo

E nele
        bateis todos

Concha Rousia

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Poema número 3


                                                      (imagem google)

Quando me entrego a ser
             essas pequenas cousas inventadas

Sei que me faço eterna
            e infinitas todas as minhas verdades.

Concha Rousia

Covas, 1 de novembro de 2009

terça-feira, 3 de novembro de 2009

O meu rio




A vida passa por mim
como um rio de gente
                               a me povoar

Hoje doem-me os que já se foram
                                    
Sinto também as dores dos que agora
                                                      passam

E doem-me os que virão
                                 quando o meu rio secar.

Concha Rousia

Covas, 1 Novembro de 2009

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

De pedra

(Para honrar a memória do meu pai e da minha mãe novembro de 2009)

   De pedra

    De pedra a casa

                        De pedra as escadas

    De pedra a lareira
                e os calçadoiros do lume
                                           hoje apagado

    De pedra a pia
                e a fonte que lhe dá água

    De pedra o maçadoiro do linho
                                       agora banco
                                       sem gente para se sentar

    De pedra a chuva
                           e a cabana do lameiro

    De pedra o passadoiro da cortinha
                                e os marcos entre as meras

    De pedra o paredão
                             que faz nosso o quintal

    De pedra o horizonte
                             com suas lendas
                             a escrever a nossa memória

    De pedra a Anteira d'Antela
    Pedra-Alta na lagoa sangrada
                                testemunha silandeira
                                que ninguém cala

    De pedra o caminho do cemitério
    e de pedra a nossa última morada

    De pedra a noite
                           De pedra a noite
    em que esculpirei este mundo
                                          que me destes
    em qualquer outro que vier a o apagar

    Concha Rousia

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Perpetuas mudanças




Tenho uma lista de cousas para fazer.
       e
Tenho uma outra lista de cousas para deixar de fazer.

Por motivos que desconheço...
                  atendo sempre a segunda destas listas
                  perpetuando, deste jeito, ambas
                  e perpetuando também esta 'eu' que queria mudar...

Concha Rousia

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Pensamentos indissolúveis I



POR IMPERATIVO LEGAL:
                  Vivo em Espanha

MAS...

POR IMPERATIVO ÉTICO:
A Espanha nunca viverá em mim.

domingo, 25 de outubro de 2009

O ladrão do pão


(Dedico este poema à Marcha Mundial pela Paz e pela Não-Violência que hoje chegou a Santiago de Compostela polo Caminho Galego-Portugues)


Foi no acordar das ondas adormecidas
no mar morto da minha memória
com o chilrar duma gaivota a desafiar o vento
                        que eu pedi perdão

Foi com o roçar do invisivel fio
que atou a fame ao pescoço doutra vítima
                        que eu pedi perdão       

Pedi perdão a essa meninha
                      que hoje viveu seu último dia
                     e eu me esqueci
                     ou pior
                        eu nem lembrei
                                nem sabia da sua existência
a essa meninha a quem a fame se fora anunciando
       mesmo antes de ela ter nascido
achara acougo no morno ventre
                      no sacrificado ventre de sua mãe
mau foi nascer
          abrir os olhos e nascer
                                       sem vida a aguardar por ela
é só por alguém ansiar dous anacos de pão

hoje
      que minha inconsciência toma as rédeas da conciência
           penso nela
      e quero imaginar o rosto do ladrão do seu pão
pão destinado a ser alimento de mofos nas lacenas dum mundo obeso
atraveso as ruas inçadas de rostos bem mantidos
busco entre os homens
         entre as mulheres
busco entre os mais novos
         entre os mais velhos
busco entre as crianças envoltas em gordura
busco                                      busco
        busco                    busco      
                busco             busco
                        busc   busco
                     busco
 
a minha indecisom vai tapando-me os sentidos
                        não posso escolher
                        nem preciso
qualquer um poderia ser
        mesmo esse
                não
                                melhor aquele
                                                  não
                                                        aquele
                                     aquele...
                                          não
entro na casa
             passo em frente do espelho
                             eis a quem lhe pedir contas.

Concha Rousia

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Pensamentos solúveis IV




Quando me felicitam por meu aniversário
penso que o mérito é da minha mãe.

Quando me felicitam por um texto que
eu escrevi entendo que a mãe sou eu.


Concha Rousia

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Poema para uma vida em Compostela




Eu
Numa casa antiga e nuns olhos novos
Abraçando todos os meus 'eus' possíveis
E destemendo todos os teus 'tus' reais
e mesmo imaginários...

Tu
Amando os telhados de chuva azul
a cair de destiladas nuvens brancas
alimentando as pombas e as visitas
nas longas tardes que sentimos curtas

Nós
Estudando os mapas das nossas geografias
a fazer poemas na pele com dedos molhados
deixando que o sexo nos reinvente corpos
corpos desconhecidos nos nossos corpos

Eu e Tu
e já os anos passam nos levando
juntos...
por sabedoria trocamos o nosso alento
e já somos nós a reinventar o sexo
e os telhados molhados de cidades
reconhecidas nos mapas da pele

Eu
a mesma criança que nascerá outro dia
Tu
o mesmo adolescente enamorado do mundo
que cria nas assas em que voa comigo

Concha Rousia

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Homens que Lutam um dia...




 http://www.vieiros.com/columnas/opinion/998/homens-que-lutam-um-dia

Sentimentos do ser...




Sou chinesa
                 sei que o sou
quando vejo o Céu povoado
polos nossos antepassados

Não por nós ser filhos de Deuses
mas por eles ser os nossos pais

Concha Rousia

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Ilha do Pico, Açores
















Haikai 4


A neve gosta

do bico da montanha

se a baixas foge


Namay Ferreira

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Mercedes Sosa & Eu





Sempre me senti conectada com esta mulher
até polo ar de índia que de jeito misterioso
                               
                                e mágico
                               há em mim...

De sempre soube que me parecia com ela
por vezes pessoas que eu não conhecia
                                              me paravam pola rua
para perguntar do meu relacionamento com essa mulher.
Lembro que a primeira vez que alguém me perguntou
eu nem sabia quem era Mercedes Sosa...

Depois fui-me descobrindo nela.
Sabia dessa nossa conexão...
via nela à guerreira irmã que luta
também a minha luta, 
                        como eu luto a sua...
Porque toda a luta é a mesma luta.
O que me surpreendeu foi a sua morte
que até com isso ela me veio marcar

Ela morreu o meu dia de anos...

O dia que eu fiz 47 ela morreu com 74.

Cada novo aniversário meu será também o dela...

Concha Rousia








quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O Olhar do Tempo

                                                                       (imagem google)
   
O tempo foge de mim
olha-me de manhã
                          e foge
eu quero saudá-lo
Inclusive quero convidá-lo
e que fique um bocado comigo
                                  à conversa
mas ele desanuvia da minha frente
e acho que nunca lhe darei alcance

O tempo é o gume invisível
do ar morto nos ouvidos de ontem
que afasta de mim os meus tesouros

eu quero que ele se achegue
quero que se faça meu amigo
que me fale
que folgue comigo na cama
e se detenha de manhã
                                 a me olhar.

Concha Rousia
                                                                         (imagem google)

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O saber da água...


                                              (imagem google)

(dedico este meu contar, ao ser chamado Avelino Abilheira)

Em Setembro celebras-se a festa da aldeia, celebra-se o Carme e o Santiago juntos; as datas foram mudadas porque os messes que lhe correspondiam a esses santinhos não eram de jeito no mundo labrego e houve anos que arderam as medas do pão por mor dos foguetes; foi por isso que se mudou o festejar para o último domingo de setembro seja o dia que for... mas comemora-se é a virgem do Carme e o Santiago juntos... Agora não é como dantes que duravam uma semana ou duas os preparativos... esfregar o chão do quarto, que esse dia era de jantar, mas outro dia vinha a ser a sala do defunto, ou o lugar onde as moças casadeiras recebiam aos moços que lhes andassem a falar... e ainda outro dia era o lugar onde dormir os convidados em camas colocadas de propósito...

Mas agora a casa vive sozinha... a gente fugiu, uns para o Além, outros para o esquecimento, e outros para as trincheiras da poesia, e outros para nem sei donde... Também esfregávamos os bancos de madeira com uma espécie vassoiro de raízes duras de mão, que nem sei mais como se chamava; este de mão era diferente do de esfregar as tábuas do chão, que era encabado, para não ter que andar de joelhos...

Um més antes começávamos a juntar os ovos para fazer o roscão... daqueles do buraco no meio... Horas de música de batedores em caldeiro de zinco, esse metal que agora não se usa muito e que a mim hoje, não sei porque motivo, me traz à lembrança o poema moçambicano 'quero se tambor'... e quando a música que saíra dos braços das nossas mães parava e a doce massa ia parar às formas, os caldeiros e os batedores eram entregues as crianças... Não podiamos ter medo a gripe... porque irmãos lambem juntos... os lindes do ser individual ainda não foram inventados... O dia chegava... Depois da alvorada vinha o jantar-do-meio-dia (assim se chamou sempre). Depois a gente ia para a aira da festa, a música era de perto, a banda de Parada ou uns gaiteiros de por ali perto... não havia grandes orquestras, e ainda bem, porque assim a música não nos fazia a cada ano mais estrangeiros de nós próprios... Por vezes ser pobre é uma grande riqueza, mas acontece que demoramos em descobrir...

Contudo agora as festas reduzem-se a uma cheia de familiares que nos desconhecemos, uns mais e outros menos, a jantar juntos e pouco mais... Da 'festa' fica apenas a Fonte do Meio da Aldeia... tudo o resto tem um sabor diferente. Mas a água segue a ser a mesma. Quanta água se levava a cassa esse dia e os anteriores...! Este ano quando eu partia para voltar às terras d'Amaia, onde agora moro, parei e enchi uma garrafinha de água a meu passo pola Fonte. Fui bebendo para Compostela... a sobrante acompanhou-me dias depois a Bragança, lá andou comigo nos Colóquios da Lusofonia com os irmãos de língua chegados de Brasil, de Macau, de São Tome, de Nigéria, de Bulgária, da Roménia, de Portugal continental, dos Açores, e também da Galiza... Vi, em terras trasmontanas, algum sinal que não vou aqui desvendar, mas deu para compreender cousas... que esqueci logo.  Voltei para Compostela... 

O dia a seguir, dia 5 de outubro, quando me dirigia à rua do Vilar para um seminário de Lexicologia, com muitos dos amigos vindos de Bragança, já passava perto do muro de São Francisco, (que é santo do meu dia de anos) começou a chover, abri o meu guarda-chuvas e de dentro dele caiu a garrafinha que me tinha acompanhado sem eu ter sido muito consciente, afortunadamente não era de vidro...

Foi vê-la e... Ante mim se passaram imagens do passado, muitas das que eu não podia ter lembrança... depois a água, como o ser vivo que é, me falou junto com o rumor da chuva... eu segui o que ela me indicou... Bebi, dei de beber a terra e ainda ficou algo na garrafinha para as pedras... As imagens do passado esvaeceram transformando-se nas que vinham do futuro... entendi sinais que tinham estado aí (como diria o outro, nas minhas ventas) mas eu nunca reparara, sei que foi a água, que me fez ver... o que senti é indescritível; uma frase dum livro que me ofereceram havia 10 anos justos o dia antes, o meu dia de anos, e que eu não tinha aberto até esse dia, veio à minha cabeça... o livro trata da filosofia Adleriana e o sentido da vida, a frase era... 'we know more than we understand'  Vou deixar a minha narrativa por aqui, mas digamos que eu esse dia compreendi muita cousa que sabia, e não sabia... Também entendi porque levo pedras comigo... Ao ver de novo o relato do senhor Avelino Abilheira lembrei este episódio que estava logo para esvaecer da minha memória, e decidi escreve-lo, e agora sim, já posso esquecer...

Concha Rousia



Nota final: A capacidade da magia vai em nós, em todos e todas nós, é apenas questão de a deixar assomar polos olhos...