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segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Versos sem amansar

....................................8 cabeças_escher..................................


Escrevi um poema para chorar
um poema sentimental
de lágrimas doces a escorregar pola folha
numa solidariedade intensa de não saber
quem é que chora
se eu
ou o poema

Eu sangro
eu tenho dentro de mim as facas da vingança
eu estou, mesmo agora, sendo cravada
permite-me que o diga assim cru
como é sentido
sem envoltórios
sem preâmbulos...
eu não sou acompanhada da palavra
da lentidão da tinta da caneta
os meus carreiros de letras
precisam da força do latejar
que os empurra para saírem
eu escrevo com sangue que me queima
que me cicatriza as feridas que me causa
o parto dum poema

eu
como o poeta
gostaria também saber de contenção
de controle do relato
mas eu tenho dentro um cavalo bravo
eu sou um ser selvagem com aparência humana
eu sou a natureza viva que se vê a morrer
eu sou todos os seres humanos do planeta
e sinto simultaneamente tudo o que me nega.

Ás vezes não posso pensar e escrevo
não posso falar e escrevo
não posso ler e escrevo
depois deixo que o pó cubra a face do poema
algum dia
quando o encontrar de novo
não o reconhecerei
nem o lembrarei
e nos faremos amigos
e talvez ele me deixe que o escreva.

2 comentários:

  1. eu sou um ser selvagem com aparência humana.

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    1. Que bem que me entendeu, tão atual esse verso nestes tempos...

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