A Rousia é essa montanha que herdei sozinha, e que está prenhada de mar, e por ele eu um dia viajarei para ir a ilha dos nossos, o povo que desapareceu da aldeia da Rousia. Ficam casas desfeitas, com paredes a amparar carvalhos que crescem na ausência do povo ido... Concha Rousia
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sexta-feira, 8 de julho de 2011
Ahhh o amor...
O amor é um anestésico
que costuma perder seu efeito antes do final da operação...
P.S: Ora que muitas vezes a operação terminou e a anestesia continua...
Concha Rousia
Desejo
E se morrer, quero que seja com meus segredos
Não quero confessores nem piedades...
Nem caminhos traçados por meu bem
Nem meu mal
Nem danças
Nem baladas
Nem poemas
Nem nada...
Hoje quero apenas sentir que a chuva molhar minha cara como se eu fosse já uma planta...
pequena, grande, tanto faz, plantas aceitam sempre seu tamanho, sua forma,
seu destino...
Hoje quero é perder-me na floresta sem palavras
Concha Rousia
quinta-feira, 7 de julho de 2011
Muros de Vento
Que ninguém me diga de onde vem o vento, quando é em meu rosto que ele bate, e eu sei que de costas não se avança, como sempre sei onde ficas tu e onde fica Norte...
Que ninguém me fale de sua força quando é meu corpo feito carvalho que sente como lhe rouba suas folhas... converti-me em nuvem, mas nada adianta ser nuvem sem mãos para se apegar nesse céu sem deuses e nem montanhas... que dianho de Deus me fez ateia !! quero gritar aos céus...
Que ninguém me diga onde fica o muro quando são as minhas mãos as que o constroem, eu colocarei nele as primeiras palavras, sei sim, não eram minhas, as palavras sempre são prestadas, sempre são usadas, mas estas a mim me eram familiares, julguei que as reconhecia, e ao passarem me falaram, e mesmo que não me falassem, como não reconhecer o que um dia acariciou os ouvidos da alma...? sim, elas já foram minhas, se é que palavras se possuem, mas elas hoje não pararam, elas hoje passaram, passaram voando aqui no vento que hoje não sabe ser carícia... ahhhh passaram aqui tão pertinho, bulindo nas folhas dos carvalhos, mas não se detiveram, elas não se detiveram... e seguiram seu rumo sem mesmo me verem, voando nesse vento que hoje me embate para as levar a caminho do Sul, e eu não consegui pará-las e apanhá-las nem para sequer as colocar em meu muro...
Ora eu não me importo por palavras, palavras há tantas, tantas... que não é poeta quem não quer, porque são tantos os olhares desaproveitados, ou até descultivados...
Com cada palavra erguerei sua pedra e em breve terei o muro de meu castelo, serei a minha prisioneira, palavras é fácil achar, o mundo é todo feito de palavras, tu és feito de palavras, nós somos palavras, somos conversa, conversa que quando se derrube nos ferirá mais do que ferem as pedras quando caem... Preparemo-nos pois, meu bem, porque elas sempre caem, caem ferindo a gente... Talvez seria bom escolher agora o silêncio... mas receio que não vai ser assim, então a parede subirá para logo cair sobre nós, mas depois ficamos livres de paredes e ventos, e poderemos começar de novo os caminhos todos...
Sinto saudades dessa eu nova a renascer depois da caída do muro... sentindo a força do vento só nas costas, para me levar ao mar que é aonde sempre me dirijo, esse vento um dia será meu aliado, mesmo que hoje seja apenas inimigo que me derruba, mas eu sei que é só por eu lhe dar minha força, por eu lutar em sua contra... Por eu não aceitar, por eu não me render à evidência... porque hoje, eu sei hoje que meus rios não molham mais teus pés, teus pés cansados de tanta água salgada, cansados das correntes, e sem porto para aportar... ahhh eu sei, eu sei, como sabe o vento...
E sei também que em breve serão tantos os caminhos que só temo me perder na encruzilhada... será um leve medo, medo que se antecipa a esse eterno ir, mas depois eu vou, como essa folha de outono que sou, e vou e voo sobre tudo aquilo que fui é já não sou, voo sobre todos os céus inventados que não pariram deuses e nem deusas que me contem seus contos, vou... eu vou sentindo-me infinitamente liberada, mas hoje sei que ainda não é o dia da partida, sei que ainda tenho que construir meu muro para depois derrubá-lo...
(em construção...)
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Des-lembrança
Já nada sei
lembro apenas o dia
que descobri
que o que sabia
tudo esquecera
Foi como morrer
Foi como vencer a morte
Qual a diferença?
Qual a diferença...?
Concha Rousia
lembro apenas o dia
que descobri
que o que sabia
tudo esquecera
Foi como morrer
Foi como vencer a morte
Qual a diferença?
Qual a diferença...?
Concha Rousia
domingo, 3 de julho de 2011
Xingu
Hoje chorei por ti
meu rio de lágrimas
a percorrer minha face
como percorres tu a Terra
Xingu
rio que levas meu sangue
meu rio irmão
meu rio indígena
Despe-te de peles brancas!
que te afogam em vida
que nos asfixiam...
Xingu! meu rio indígena
Eu sei tu és gente
eu sei tu és o mar
eu sei tu és eu
sei que sofres, que padeces
não por ti
meu generoso caudal de vida
tu sofres por nós
e em nós...
os filhos e filhas
que te chamamos pai
e te chamamos mãe
porque tu, meu eterno rio
é quem nos dá a vida
Xingu, meu indígena...
Concha Rousia
meu rio de lágrimas
a percorrer minha face
como percorres tu a Terra
Xingu
rio que levas meu sangue
meu rio irmão
meu rio indígena
Despe-te de peles brancas!
que te afogam em vida
que nos asfixiam...
Xingu! meu rio indígena
Eu sei tu és gente
eu sei tu és o mar
eu sei tu és eu
sei que sofres, que padeces
não por ti
meu generoso caudal de vida
tu sofres por nós
e em nós...
os filhos e filhas
que te chamamos pai
e te chamamos mãe
porque tu, meu eterno rio
é quem nos dá a vida
Xingu, meu indígena...
Concha Rousia
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Noites sem Noite
com seu milhão de olhos de luz
a se espetarem em minha carne
Cada poro um orifício iluminado
por voraces lampadas que insaciáveis
deglutem a noite comigo dentro
no meio de um ruido indecifrável
Eu corro...
fujo em meu carro de fogo
afasto-me em direção a nenhures
como se o inferno me perseguisse
não há tempo para reparar no caminho
não, não há tempo, não há tempo...
Sei que não sou filha do asfalto
nem dessa luz que tanto me violenta
Pegunto-me até onde pode chegar
o veneno antes que nos mate
o veneno
até onde a luz artificial e falsa
antes de nos cegar...
até onde o silêncio, até onde o silêncio...?
Prefiro o canto do grilo e da clouca*
do que estas músicas metálicas
que decoram a vida para além
do sentido da Vida...
Prefiro os desenhos do vagalume
e o relumbrar dos olhos do gato à sua espera
e o sapo sempre sentado no caminho
pra lhe jogar a volta à raposa num conto
Prefiro a Lua e a dança da curuja
prefiro as estrelas que conto com o dedo
prefiro as lendas sobre verrugas
que me nascem por contar estrelas
Prefiro que me arranquem desta luz cegadora
que me acendeu a noite e me apagou a aurora
Concha Rousia
clouca* = rã pequeneira que canta de noite 'clou-clou' anunciando um dia seco.
Comemorando na Crunha o 1600 aniversário do Reino da Galiza
Por Alexandre Banhos Campo
A Fundaçom Meendinho valoriza muito, neste ano de 2011, o impulsionamento de todo o tipo de atividades que lembrem que estamos no 1600 aniversário do nascimento do Gallaeciorum regnum lá no ano 411, na cidade de Braga – capital histórica da Galiza –.
A Galiza foi o Primeiro reino que se constituiu como tal dentro das fronteiras do Império Romano e já com o seu primeiro rei Hermerico teve moeda com o nome de reino da Galiza.
Além de outras questões, esse reino e as suas estruturas, – como com grande genialidade e intuição souberam pôr de relevo tanto Benito Viceto como Manuel Murguia no século XIX, nos primórdios do galeguismo moderno –, foi o forno onde se cozeu o pão da nossa nacionalidade, que dizer, foi ali onde foi gerado Portugal e também a atual Galiza, que está sob domínio espanhol. Sem esse reino o presente seria muito diferente.
Anteontem, dia 28, teve lugar mais um ato dos que vimos realizando, para os quais contamos com o apoio da As. Galega de Historiadores e, neste caso, a vontade amiga da A.C. Alexandre Bóveda da Crunha.
O Palestrante foi Xoan Bernardez Vilar, historiador, académico da RAG e associado da AGAL , quem leva publicado já mais de trinta livros, abrangendo tanto a divulgação histórica como os romances de temática histórica, de muito sucesso popular, como se percebe polas suas múltiplas reedições. Também teve uma pequena intervenção sobre este mesmo assunto do reino da Galiza o presidente da Meendinho, estando os dous acompanhados e apresentados polo Presidente da A.C. Alexandre Bóveda, Roberto Catoira.
Há às vezes nas pessoas uma doença terrível, que é o Alzheimer, que faz que os doentes vão perdendo a memória. As pessoas sem memória acabam sendo seres que vegetam, mas que não têm futuro e o seu passado lá fica esvaído nas trevas. Há povos a que neles se incute o vírus, neste caso os priões, geradores do Alzheimer social, doença terrível para os povos que a padecem, e que só se combate e se cura com memória, abelência social e esclarecimento, e nisso é que quer trabalhar incansável a F. Meendinho, como a melhor maneira de inserir a Galiza no espaço da Lusofonia a que pertence.
No ano 2000, Aquisgrão (Aachen em Alemão), junto com outras cidades europeias, foi cidade europeia da Cultura, e isto foi assim por se cumprirem o 1200 anos da proclamação de Carlos Magno como o imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Por toda a Alemanha, e por outros países também, havia atos, palestras, programas nos meios, trabalhos nas universidades sobre esse feito e a sua importância histórica na configuração da moderna Europa e da Alemanha, e a importância do seu legado.
Sabei, amigos e amigas, que a importância disso era muito menor para a Alemanha que o Reino da Galiza para nós. Mas aqui os priões instalados no governo, nas instituições, na ignorância interesseira e espanholista que impera nas nossas universidades, faz que passem tão importantes feitos em bicos dos pés e no silêncio que ecoa ignominioso.
Em Portugal deveria ser outra cousa, mas há o problema esquisito de não entenderem certas elites provincianas que a Galiza histórica, sendo tal, já era verdadeiro Portugal, o que faz que também estes assuntos não tenham o relevo que corresponde.
Porquê foi tão importante o reino da Galiza para a Galiza e Portugal? Reparai neste primeiro e fulcral feito:
A sua criação foi recebida pelos galaico-romanos como uma benção, sim, como isso. Idácio de Chaves, um galaico-romano coevo, bem que no-lo conta, e não como uma desgraça. Os suevos trazem alegria ao povo, libertaram as pessoas da escravidão das dívidas e do fisco imperial, permitiram agromar por todo o lado muita iniciativa criadora.
Que era o que se deu para que isso fosse assim?
O pequeno grupo de germanos suevos que chegaram a essa província romana da Gallaecia com outras gentes germanas e não germanas, num totum revolutum, frente ao comportamento de outros povos, como por exemplo os visigodos, os saxões ou os lombardos, misturaram-se desseguida com o povo que os acolheu, adotaram a religião da maioria e deixaram a deles, integraram os galaico-romanos na suas empresas e governação, impulsionaram novos modos de governança.
Os inventos dos concílios, – conselhos do povo com todos os estamentos –, não nasceram nem em Toledo nem em Milão, nasceram na Galiza – Braga –, igual que depois mais tarde na Galiza nasceriam as modernas cortes, que se estenderam depois pola Europa.
Organizaram o território no Parrochiale Suevum ou Divisio Teodomiri, que ainda corresponde à nossa organização natural, muito bem continuada nessas maravilhosas estruturas administrativas de Portugal, que são as freguesias.
Nesse reino da Galiza criou-se um modelo de língua no latim proto-galaico que viria dar no nosso português moderno expandido pelos quatro cantos do mundo. Poucos povos podem proclamar tanto sucesso histórico.
O arco de ferradura não é árabe, é galego; a igreja de Santa Comba de Bande e a sua gémea de Viseu, não são visigóticas, são criações originais do nosso povo.
Esse reino estabeleceu uns limites fronteiriços do território bastante estáveis, que vão ser o cerne da nossa nacionalidade, e que depois, na reconquista frente ao muçulmano, foram expandidos.
Lembremo-los: no leste os rios Águeda, Douro e Órbigo eram a raia; no nordeste, sempre em dura e constante luta, fundaram Ovetum (Oviedo) como forte de defesa, e deram ao rio que fazia de fronteira o nome do território externo que marcavam, rio Hispania, que hoje leva o nome de Espanha e fica um pouco a leste de Gijom; no sul a fronteira estava no Tejo e na linha que de este nos leva ao promontório de Peniche.
Deixaram-nos inúmeros nomes na nossa toponímia, que respondem não a uma imposição e sim à alegria da sua aceitação pelo nosso povo; povo que popularmente e até muito recentemente usava os nomes germânicos de maneira dominante, como contraste com os nomes das elites espanholas dominadoras, que os usavam latinos ou judeus.
Poderíamos estar indefinidamente falando das marcas que nos deixaram, algumas na vida do dia-a-dia, da broa (pão em germânico) ao lardo (toucinho em germânico), mas sabei que depois de quase douscentos anos de existência consolidada como importante reino da cristandade, não desapareceram. Isso é completamente falso.
Na Ibéria visigótica a Galiza foi sempre um reino distinto e inconfundível com a Espanha, que permaneceu e continuou distinto na sua governação. Estão aí as atas todas dos concílios de Toledo – esses, copiados do modelo galaico – para o demostrar; e estão as fontes históricas para nos indicar que mais de um rei godo, antes de o ser em Toledo foi-o na Galiza, como por exemplo Witiza, e que na Galiza sempre havia a figura duma personagem com a condição real.
Chegou a invasão muçulmana e a Galiza safou-se da dominação. Salvou-se com um penhor, uma coima que não teve longa duração. As dioceses da Galiza, com a própria Braga, são as únicas dioceses peninsulares que tiveram continuidade no tempo e nunca ficaram vagas.
Frente ao muçulmano, é a Galiza, o poder que o vai enfrentar. Só a Galiza aparece nos textos muçulmanos e dos demais reinos cristãos da Europa, francos, lombardos, anglo-saxões, normandos...
Castela-Espanha nasceu como uma força separatista1, frente à Galiza, e triunfou afirmando-se contra a Galiza e negando-a. O submetimento da parte norte da Galiza e os instrumentos nacionalizadores da escola e das suas instituições espanholas socializaram os priões da desmemória do nosso ser. Só o conhecimento consciente e o desvendar os feitos, pode fazer-nos livres e seguros de nós próprios.
Além disso, o sucesso dessa parte fulcral da Galiza, que é Portugal, graças ao maravilhoso milagre da sua separação e nascimento como Estado diferenciado2, fez que a nossa língua e cultura seja um referente internacional, o qual, como dizemos na Meendinho, é ouro nas nossas sacolas e faltriqueiras.... não deixemos que nos roubem, abramos todos e todas bem os olhos.
Nota: A.C. Alexandre Bóveda proximamente disponibilizará o vídeo na sua página web.
1 É muito boa, ao respeito, a obra de Eduardo Menendez-Valdes Golpe “Separatismo y Unidad” ed. Galaxia 1970
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