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domingo, 8 de maio de 2011

Ser


Pertenço a uma cultura milenar
sou chinesa
sou africana
sou japonesa
sou galaica, sou índia e sou malaia
sou a Terra
sou mulher
sou mãe
sou filha
sou filha da filha
sou infinita...

Concha Rousia

Metamorfose ambulante


(A Raul Seixas e a quem o cante...)

Eu sou filha do Outono
de um outono sem maios
nem abris no ventre
para me parirem flor...
Não, não não...
no meu tem setembro
tempo de fazer o vinho
e embebedar sentires
no meu tem outubro
de folhas que voam
de regresso à Terra
no meu tem novembro
de castanhas e lume
de honrar os defuntos
meus vivos ausentes...

Sou filha do meu tempo

Nunca serei flor de maio
serei só folha que muda de cor
que encanta os melancólicos
e diverte as crianças...

Folha a voar sem rumo
livre qual errante passarinho
que aprende a voar...
sem reparar onde se ir pousar
folha de ignorar seu destino

Não procures em mim
a cor da flor que não sou
o tato da flor que nunca serei
mesmo que as flores eu nutra
eu sou abrigo para o chão
sou alimento para a terra
sou folha
                sou metamorfose
sempre ambulante...

Concha Rousia

sábado, 7 de maio de 2011

Outono


Outono by Oliveira

Para Concha Rousia de Galiza

Se pudesse eleger minha paisagem de coisas memoráveis, elegeria o casarão da quinta de minha infância perdida, localizada em longínqua aldeia, no outono de minha inocência imaculada, à hora crepuscular, com repique de sinos ao longe... Lá fora, o espetáculo do desnudamento quase sensual das árvores atestando a transitoriedade da vida; o desenrolar lento do novelo nas mãos da tia velha sentada na cadeira de balanço, na varanda, fazendo crochê, alheada da realidade, mergulhada na poeira incandescente de sua infância embalada por outros outonos rubros de alegria e de felicidade... Outrora...

Outrora eram sons de saudosos violinos, de graves violões, langor de mágico piano, doce melodia de flautas embalando meus sonhos na pasmaceira de ocasos que prenunciavam o acabamento de algo inda indefinido, mas sentido no âmago da memória ancestral de minha alma... Sonhos extravagantes cavalgando em disparada pelos campos, gerânios nas janelas abertas para o vale em ouro, árvores despidas de antigas mágoas, rio levando em sua correnteza as folhas mortas de todos os propósitos... Recordo isso, e minha alma se enche de uma ânsia esmaecida, de uma saudade brumosa como se fosse uma cortina disfarçando a véspera do acabamento de tudo...

Hoje sei que minha alma pressentia o cárcere mudo, a dor do desamparo do calabouço, quando assistia ao espetáculo do ocaso e invadia-me um desassossego indistinto que fazia transbordar a taça amarga de outras existências esquecidas no porão de ser... Eu não trazia meu coração partido, não sabia interpretar com clareza o turbilhão de emoções plúmbeas que se avolumavam e oprimiam meu coração com uma ânsia de náufrago em mar noturno, quando, ao longe, soava dolente a hora do entardecer...

Ah, meu Deus! Hoje são girassóis de tédio, velhas chagas abertas, réquiem do sol nas horas trêmulas do ocaso, palidez de rosas e lírios em jardins de esquecimento, velhas cartas amareladas pelo tempo, lembranças vãs de intentos malogrados; vento em atropelo no ar que alberga as folhas mortas que se desprendem atônitas, rubras de espanto ou amarelecidas como rosas esquecidas entre as páginas de um livro jogado no sótão da memória e que se deixam levar entorpecidas, ébrias, decaídas, entregues ao destino...

Ouço, vindo de muito longe, o som nostálgico dos sinos de minha infância perdida. Por certo dobram por meus desenganos, pela nostalgia que sinto ou pela assombrosa solidão de meus inúteis dias... Dobram, dobram por meu espanto perante esta hora vestida de púrpura em que não sei o que fazer de mim... Vem-me à memória a pipa que confeccionei com as cores de meus sonhos, que sonhei planando colorida e que jamais alçou voo na palidez azul, da tarde clara e sem fim, de um outubro rubro guardado na parede da memória, testemunho da fugacidade do tempo...

Outono... Fim de tarde... Tudo parece diluir-se num espetáculo de cores e sossego… Um vento brando toca as folhas mortas, bailarinas desnorteadas, que rodopiam num balé triste e sincronizado. Assisto a tudo impassível. Quisera, meu Deus, enxergar o outono com os olhos do menino que fui. Impossível. Trago a íris rodeada por uma bruma espessa, um mapa de fissuras profundas no rosto; nas costas, o peso do fardo de tantos fracassos, de inúmeros malogros, de muitíssimas desilusões recolhidas na monotonia noturna de sucessivos outonos... Hoje, meu coração é um vitral estilhaçado de uma catedral gótica, no alto de uma colina íngreme, inatingível...

Os pássaros cantam seus últimos acordes sonoros, agradecendo o dia que se dilui preguiçosamente num espetáculo de cores no mata-borrão do céu e acordam em mim alguma coisa adormecida no emaranhado da alma, desenham um mapa de pequenos rios, nascidos dos olhos da memória, águas que não puderam suavizar as inúmeras partículas de dor nascidas de fracassos acumulados, de travessias muito antigas por longínquas terras com um gosto de outros mares... O poder que se oculta por trás dessas imagens sugere uma estranha força e desperta em mim sentimentos inomináveis.

Quedo-me vencido, folha-morta numa alameda de árvores seculares. Ouço Chopin diante da lareira, carpindo as rosas murchas da saudade da criança dos vales que se esvaiu no tempo. Leio Fernando Pessoa, fumo ópio, embriago-me de absinto. Lá fora, o outono sempre o mesmo... Eu, meu Deus, tão outro!...

Oliveira

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Somos Celtas


ÁRVORE SAGRADA: Galegos , filhos de Caleac , a deusa-nai dos Celtas.

... os povos lembram, os povos têm memória ... a sua cultura .

A pessoa interessada tem aqui o link do site:  http://www.arvoresagrada.hd1.com.br/ibero_calec.htm

                               Po uma Galiza visível !!!




A caminho da Alvorada...

(Imagem google)

Esta noite sonhei-me
                               chorando contigo

e dos teus olhos
vi brotar duas bágoas*
                                  que eram minhas...

reconheci em mim
                             como nossa
                                               a tua dor...

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*bágoas = lágrimas

quinta-feira, 5 de maio de 2011

SE OS CARVALHOS FALASSEM - CONCHA ROUSIA

PARA MERCE RORO...

UMA ALMA AMIGA QUE CHEGOU
                                                A MINHA VIDA E A MINHA POESIA
E EU SENTI COMO ELA FAZ PARTE DA MINHA ETERNIDADE...
COMO EU FAÇO DA SUA (DA TUA, MERCE)...

NÃO HÁ TEMPO NEM DISTÂNCIAS QUE NOS SEPAREM
NÃO HÁ NOITES SEM AURORAS...
NÃO HÁ MAIS EU SEM TI
                                  SEM TE LEVAR COMIGO...

QUERO OFERECER-TE ESTE POEMA
(QUE UM DIA ESCREVI PARA MEU PAI)
E AGORA RESCREVO CONTIGO...

COM AS MESMAS MÃOS

COM A MESMA DOR E
COM A MESMA ALEGRIA...

Compostela 6 de Maio de 2011

O rio das palavras afogadas

(meus caros amigos e amigas, neste poema, como nalgum outro o meu 'eu' poético não coincide com meu 'eu' pessoal... este aqui é um 'eu' coletivo de um povo sofrendo etnocídio...)

Se eu soubesse onde ir morrer
                                             morreria
mesmo atirando-me da ponte
                         da palavra mais alta
talvez campanário
                           ou torre
ou mesmo carvalho...
ou estrela
sem dúvida ‘estrela’ é a mais alta
se me atirasse de uma estrela
de certo morreria

Nerea insiste em que não daria chegado
em que morreria a caminho da estrela
Não seria mau
morrer subindo a uma estrela...

Talvez deva escolher outro tipo de morte
ainda que seja mais lenta e dolorosa...
              Envenenamento
beber a palavra cicuta
            podiam ser o remédio

Também já pensei em fugir
mas fugir não adianta
a nossa é uma pátria redonda
tudo se toca
tudo se vizinha de tudo

Ms antes que esse rio se desborde
esse rio da língua alheia que nós atravessa
se desborde e asolague tudo
quero estar morta

Moro na angústia de correr contra o tempo
chamar vida a vida é mesmo um eufemismo

De nada serve que grite
desde onde estou ninguém me ouve
sitiada
tem-me sitiada o assassino
oculta-me em sua negra sombra
vasta e preta capa que tudo sufoca

Por vezes pergunto-me
como será viver lá fora
na luz do dia eterno
poderia até cantar
eu sei que poderia
se cantasse agora talvez me ouvissem...
é triste pensar que ninguém se lembra de mim
todos vão construindo seus barquinhos
em forma de caixão
vão deixando que o rio os leve
a um além que não existe...

Concha Rousia