(meus caros amigos e amigas, neste poema, como nalgum outro o meu 'eu' poético não coincide com meu 'eu' pessoal... este aqui é um 'eu' coletivo de um povo sofrendo etnocídio...)
Se eu soubesse onde ir morrer
morreria
mesmo atirando-me da ponte
da palavra mais alta
talvez campanário
ou torre
ou mesmo carvalho...
ou estrela
sem dúvida ‘estrela’ é a mais alta
se me atirasse de uma estrela
de certo morreria
Nerea insiste em que não daria chegado
em que morreria a caminho da estrela
Não seria mau
morrer subindo a uma estrela...
Talvez deva escolher outro tipo de morte
ainda que seja mais lenta e dolorosa...
Envenenamento
beber a palavra cicuta
podiam ser o remédio
Também já pensei em fugir
mas fugir não adianta
a nossa é uma pátria redonda
tudo se toca
tudo se vizinha de tudo
Ms antes que esse rio se desborde
esse rio da língua alheia que nós atravessa
se desborde e asolague tudo
quero estar morta
Moro na angústia de correr contra o tempo
chamar vida a vida é mesmo um eufemismo
De nada serve que grite
desde onde estou ninguém me ouve
sitiada
tem-me sitiada o assassino
oculta-me em sua negra sombra
vasta e preta capa que tudo sufoca
Por vezes pergunto-me
como será viver lá fora
na luz do dia eterno
poderia até cantar
eu sei que poderia
se cantasse agora talvez me ouvissem...
é triste pensar que ninguém se lembra de mim
todos vão construindo seus barquinhos
em forma de caixão
vão deixando que o rio os leve
a um além que não existe...
Concha Rousia
A Rousia é essa montanha que herdei sozinha, e que está prenhada de mar, e por ele eu um dia viajarei para ir a ilha dos nossos, o povo que desapareceu da aldeia da Rousia. Ficam casas desfeitas, com paredes a amparar carvalhos que crescem na ausência do povo ido... Concha Rousia
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quinta-feira, 5 de maio de 2011
quarta-feira, 4 de maio de 2011
A Fonte...
...a fonte...
beber de joelhos no rego que leva a água ao estanque
quando pequeninhos...
depois beber olhando-se nas profundezas da fonte...
medindo-se com o medo próprio...
calcar a cabeça do que bebe
molhar os focinhos rs...
ir a fonte sempre antes de comer...
carrejar todos os dias água da fonte...
dia após dia
ano após ano...
'mãe, molhei os pés...'
--a água não para bem dentro dos caldeiros nas mãos das crianças...--
'anda, enjuga ali no lume...'
Ir ver dançar o Sol na fonte depois da Noite de São João...
água enluarada
prenhada de noite
a renovar o mundo
sempre
no olhar...
'cair à fonte...' --cuidado, prenda...--
'lavar a fonte'...
sempre no verão...
os homens tiram a água toda da fonte, esfregam-se as pedras com ramalhos de carqueja... Ohhh pai, viu a sapelinha que saiu para o estanque... a vida da fonte passa para o estanque, nele bebe o gado, lavam-se as couves, a roupa, a carinha dos meninhos logo da merenda...e finalmente
'queimar a fonte'...
(Ora, isto último vai ficar para os mistérios da Fonte...)
Concha Rousia
beber de joelhos no rego que leva a água ao estanque
quando pequeninhos...
depois beber olhando-se nas profundezas da fonte...
medindo-se com o medo próprio...
calcar a cabeça do que bebe
molhar os focinhos rs...
ir a fonte sempre antes de comer...
carrejar todos os dias água da fonte...
dia após dia
ano após ano...
'mãe, molhei os pés...'
--a água não para bem dentro dos caldeiros nas mãos das crianças...--
'anda, enjuga ali no lume...'
Ir ver dançar o Sol na fonte depois da Noite de São João...
água enluarada
prenhada de noite
a renovar o mundo
sempre
no olhar...
'cair à fonte...' --cuidado, prenda...--
'lavar a fonte'...
sempre no verão...
os homens tiram a água toda da fonte, esfregam-se as pedras com ramalhos de carqueja... Ohhh pai, viu a sapelinha que saiu para o estanque... a vida da fonte passa para o estanque, nele bebe o gado, lavam-se as couves, a roupa, a carinha dos meninhos logo da merenda...e finalmente
'queimar a fonte'...
(Ora, isto último vai ficar para os mistérios da Fonte...)
Concha Rousia
Se eu ainda escrevesse cartas...
Do meu Diário... (imagem google)
Se ainda escrevesse cartas eu te contaria... contaria-te meu ontem... iria-te falar de ti e de tuas frases ao acaso, o acaso é um grande distribuidor de desacertos, é pena que o acaso nunca seja filho do acaso, mas esse é um mistério que eu não quero desvendar aqui neste lado do papel em que escrevo, descrevo, sangro e me encontro comigo...
...sim, não quero esquecer, não, ontem a frase, era dessas frases que igualam mundos, que equiparam existires, que igualam em alguma balança invisível, sentires... indecifráveis sentires... em cada palavra viajam centos de universos, eles atravessam, e é dependendo apenas do olhar que se apanha um sentido ou o seu contrario... a palavra 'nós', ahhhhhhhhh essa, e a palavra 'vós' que me iguala ao meu negativo, o meu não ser... o contrario de mim...
'entre o saber e o não saber acontece o infinito'
...sei que me podia ter eternizado aí, mas decidi continuar, decidi sim, porque lembrei tanta cousa e pensei na simplicidade masculina, desculpa a palavra, mas é a que achei para mostrar essa incapacidade que sinto no homem para ver nas palavras a complexidade das emoções femininas, talvez seja questão de ângulos e círculos, quem sabe Freud tinha razão nas formas que nossas pupilas adoptam para acolherem objetos, ou seus sentidos...
...então eu decidi calar, porque há frases que não nasceram para serem ditas... apenas sentidas, e não são traduzíveis, isso também não, a uma reação fisiológica... não para quem temos uma sala desmessurada para o universo emotivo, o que não deixa de ser um problema... e também não adiantaria usar de minha fisiologia, pois tu não me podias ver, então calei, isso sei fazer, calar para fora, enquanto dentro se fecunda meu mundo... é do silêncio que eu depois arranco todas as palavras... e como não escrevo cartas vim aqui contar a meu diário...
Galiza 4 de maio de 2011
Concha Rousia
Se ainda escrevesse cartas eu te contaria... contaria-te meu ontem... iria-te falar de ti e de tuas frases ao acaso, o acaso é um grande distribuidor de desacertos, é pena que o acaso nunca seja filho do acaso, mas esse é um mistério que eu não quero desvendar aqui neste lado do papel em que escrevo, descrevo, sangro e me encontro comigo...
...sim, não quero esquecer, não, ontem a frase, era dessas frases que igualam mundos, que equiparam existires, que igualam em alguma balança invisível, sentires... indecifráveis sentires... em cada palavra viajam centos de universos, eles atravessam, e é dependendo apenas do olhar que se apanha um sentido ou o seu contrario... a palavra 'nós', ahhhhhhhhh essa, e a palavra 'vós' que me iguala ao meu negativo, o meu não ser... o contrario de mim...
'entre o saber e o não saber acontece o infinito'
...sei que me podia ter eternizado aí, mas decidi continuar, decidi sim, porque lembrei tanta cousa e pensei na simplicidade masculina, desculpa a palavra, mas é a que achei para mostrar essa incapacidade que sinto no homem para ver nas palavras a complexidade das emoções femininas, talvez seja questão de ângulos e círculos, quem sabe Freud tinha razão nas formas que nossas pupilas adoptam para acolherem objetos, ou seus sentidos...
...então eu decidi calar, porque há frases que não nasceram para serem ditas... apenas sentidas, e não são traduzíveis, isso também não, a uma reação fisiológica... não para quem temos uma sala desmessurada para o universo emotivo, o que não deixa de ser um problema... e também não adiantaria usar de minha fisiologia, pois tu não me podias ver, então calei, isso sei fazer, calar para fora, enquanto dentro se fecunda meu mundo... é do silêncio que eu depois arranco todas as palavras... e como não escrevo cartas vim aqui contar a meu diário...
Galiza 4 de maio de 2011
Concha Rousia
terça-feira, 3 de maio de 2011
Há Dias
Há dias para sentir
e há dias para pensar
sim...
e há dias para sentir o que se pensa
e dias para pensar o que se sente
e também há dias para não pensar
e dias para não sentir
e ainda...
dias para sentir que não se pensa
dias para pensar que não se sente
há dias
há dias...
Concha Rousia
e há dias para pensar
sim...
e há dias para sentir o que se pensa
e dias para pensar o que se sente
e também há dias para não pensar
e dias para não sentir
e ainda...
dias para sentir que não se pensa
dias para pensar que não se sente
há dias
há dias...
Concha Rousia
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Sete Versos Sete Pedras
Sete Versos Sete Pedras
Entreguei ao mar sete versos
que eu fiz num momento
e ele entregou-me sete pedras
que leva fazendo uma vida inteira
Não me parecia justa a troca
ele leva muito tempo lavrando suas pedras
com água vento e areia
e eu fiz os versos num momento...
Mas o mar, com seu sábio olhar verde
contou-me que não era assim como eu via
que os meus versos levavam sendo feitos
o mesmo tempo que as suas sete pedras...
Levam a eternidade toda...
Apenas que antes lavrara nos versos outra gente
assim como nas pedras lavraram
outra água
outro vento
e outra areia...
Entreguei ao mar sete versos
que eu fiz num momento
e ele entregou-me sete pedras
que leva fazendo uma vida inteira
Não me parecia justa a troca
ele leva muito tempo lavrando suas pedras
com água vento e areia
e eu fiz os versos num momento...
Mas o mar, com seu sábio olhar verde
contou-me que não era assim como eu via
que os meus versos levavam sendo feitos
o mesmo tempo que as suas sete pedras...
Levam a eternidade toda...
Apenas que antes lavrara nos versos outra gente
assim como nas pedras lavraram
outra água
outro vento
e outra areia...
Concha Rousia
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As sete pedras um dia serão entregues a Evandro Vieira Ouriques (comigo na foto), mestre e amigo querido do Rio de Janeiro, que tanto saber me inspira...
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As sete pedras um dia serão entregues a Evandro Vieira Ouriques (comigo na foto), mestre e amigo querido do Rio de Janeiro, que tanto saber me inspira...
Publicado no Recanto das Letras em 09/08/2010
Código do texto: T2427087
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