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quinta-feira, 5 de maio de 2011

quarta-feira, 4 de maio de 2011

A Fonte...

...a fonte...

beber de joelhos no rego que leva a água ao estanque
                        quando pequeninhos...

depois beber olhando-se nas profundezas da fonte...
medindo-se com o medo próprio...

calcar a cabeça do que bebe
                                 molhar os focinhos rs... 


ir a fonte sempre antes de comer...


carrejar todos os dias água da fonte...
                                              dia após dia
                                              ano após ano...
'mãe, molhei os pés...'

--a água não para bem dentro dos caldeiros nas mãos das crianças...--

'anda, enjuga ali no lume...'


Ir ver dançar o Sol na fonte depois da Noite de São João...
água enluarada
prenhada de noite
a renovar o mundo
                          sempre
                                no olhar...

'cair à fonte...' --cuidado, prenda...--
'lavar a fonte'...
sempre no verão...
os homens tiram a água toda da fonte, esfregam-se as pedras com ramalhos de carqueja... Ohhh pai, viu a sapelinha que saiu para o estanque... a vida da fonte passa para o estanque, nele bebe o gado, lavam-se as couves, a roupa, a carinha dos meninhos logo da merenda...e finalmente
                 'queimar a fonte'...
                                (Ora, isto último vai ficar para os mistérios da Fonte...)

Concha Rousia

Se eu ainda escrevesse cartas...

                               Do meu Diário...        (imagem google)
Se ainda escrevesse cartas eu te contaria... contaria-te meu ontem... iria-te falar de ti e de tuas frases ao acaso, o acaso é um grande distribuidor de desacertos, é pena que o acaso nunca seja filho do acaso, mas esse é um mistério que eu não quero desvendar aqui neste lado do papel em que escrevo, descrevo, sangro e me encontro comigo...


...sim, não quero esquecer, não, ontem a frase, era dessas frases que igualam mundos, que equiparam existires, que igualam em alguma balança invisível, sentires... indecifráveis sentires... em cada palavra viajam centos de universos, eles atravessam, e é dependendo apenas do olhar que se apanha um sentido ou o seu contrario... a palavra 'nós', ahhhhhhhhh essa, e a palavra 'vós' que me iguala ao meu negativo, o meu não ser... o contrario de mim...


'entre o saber e o não saber acontece o infinito'


...sei que me podia ter eternizado aí, mas decidi continuar, decidi sim, porque lembrei tanta cousa e pensei na simplicidade masculina, desculpa a palavra, mas é a que achei para mostrar essa incapacidade que sinto no homem para ver nas palavras a complexidade das emoções femininas, talvez seja questão de ângulos e círculos, quem sabe Freud tinha razão nas formas que nossas pupilas adoptam para acolherem objetos, ou seus sentidos...


...então eu decidi calar, porque há frases que não nasceram para serem ditas... apenas sentidas, e não são traduzíveis, isso também não, a uma reação fisiológica... não para quem temos uma sala desmessurada para o universo emotivo, o que não deixa de ser um problema... e também não adiantaria usar de minha fisiologia, pois tu não me podias ver, então calei, isso sei fazer, calar para fora, enquanto dentro se fecunda meu mundo... é do silêncio que eu depois arranco todas as palavras... e como não escrevo cartas vim aqui contar a meu diário...


Galiza 4 de maio de 2011


Concha Rousia 

terça-feira, 3 de maio de 2011

FRED MARTINS - **NOVAMENTE**



O NOSSO FRED... MEU BRASILEGO...

Há Dias

Há dias para sentir
e há dias para pensar

sim...

e há dias para sentir o que se pensa
e dias para pensar o que se sente

e também há dias para não pensar
e dias para não sentir

e ainda...

dias para sentir que não se pensa
dias para pensar que não se sente

há dias
há dias...

Concha Rousia

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Sete Versos Sete Pedras



Sete Versos Sete Pedras

Entreguei ao mar sete versos

que eu fiz num momento
e ele entregou-me sete pedras
que leva fazendo uma vida inteira

Não me parecia justa a troca
ele leva muito tempo lavrando suas pedras
com água vento e areia
e eu fiz os versos num momento...

Mas o mar, com seu sábio olhar verde
contou-me que não era assim como eu via
que os meus versos levavam sendo feitos
o mesmo tempo que as suas sete pedras...

Levam a eternidade toda...

Apenas que antes lavrara nos versos outra gente
assim como nas pedras lavraram
outra água
outro vento
e outra areia...

Concha Rousia

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As sete pedras um dia serão entregues a Evandro Vieira Ouriques (comigo na foto), mestre e amigo querido do Rio de Janeiro, que tanto saber me inspira...

Publicado no Recanto das Letras em 09/08/2010
Código do texto: T2427087

quarta-feira, 9 de março de 2011

Assunta não era o nome da palestrante...

Pois não, Assunta não era o nome da conselheira encarregada da palestra a que assisti por encomenda de uma instituição a que fui representando; e digo mais, Assunta não é o nome de nenhuma das conselheiras, mesmo que todas pronunciem esse nome para se referirem à instituição para a que trabalham: A Xunta de Galicia/Junta da Galiza. A minha ideia era a de fazer uma crónica do evento, falar do Hostal dos Reis Católicos, dos assistentes, e até tinha pensado tratar de resgatar alguma cousa do contido da palestra. Reconheço que me foi impossível. Cumpriram-me os tantos para aguentar sem sair a correr do lugar...



Ora... Como resistir a tortura linguística? Numa mesma frase as persoas passavam a personas para nunca serem pessoas, engulo as palavras junto com o café de pota sem sabor a café... Na minha mente retratou-se o pacote de Sical de plástico transparente da infância, que trazia o Freitas de contrabando de Montalegre... Quanto terá ainda que piorar o café para que nos agoniemos todos? Talvez deveria tratar de me concentrar nos micro-croissants com sabor a nada que decoram as mesas, que são muitas e redondas, cheias de gente, de homens, com alguma mulher por cá e lá, decorativamente... As mulheres, isso sim, serviam o café, guardavam os casacos da gente, e uma vestida de cores apagadas passeava polo corredor central entre as duas metades da sala, como uma Barbie anoréxica, des-atrativa e triste, uma mistura entre o cuidador da biblioteca do liceu, anos 80, e a Fräulein Rottenmeier, mas nesta de hoje nem havia maldade... e eu aqui fazendo de Heidi... Sem montanha, sem cão, sem avô e sem Pedro, sozinha, estava sozinha...




Enquanto na sala continuavam a chover palavras vazias, palavras que nem molham sem se molham... Três brasões da era dos Reis Católicos coroavam a reixa que separava o lugar desde o que a oradora, acompanhada de seus acólitos e a TVG, continuava a sua charla, de vez em quando as palavras deixam de ser uma simples chuva para se converterem em facas que espetam a dignidade de qualquer falante... ‘...Como nós ya hemos dito...’ ‘...y vamos conceder mais assudas...’




Resisti. Hoje, enquanto repasso as notas que tomei, alegra-me não entender algumas das palavras que rascunhara no meu caderno, porque esta crónica podia se endurecer muito... Lembro quando decidi desatender e concluir um de meus desenhos, a sinal de STOP que me recomendara a minha filha ia vir-me bem... Pintei na minha folha, nem me importei se alguém me estaria a ver, era impossível não. Sem saber por quê, e sem intenção de me comparar, pensei em Castelão, perguntei-me se ele teria desenhado alguma das suas maravilhas em reuniões como aquela... Quem me dera ter a sua capacidade... Reflexionei sobre as culturas, e como elas são rios, rios que por vezes vão louros, como ia o de Alhariz em tempos nos que o velho alcaide, o Raposo de toda a vida, permitia esvaziar nas águas do Arnoia o sangue e os refugalhos do matadoiro; sim, por vezes os rios vão louros e emporcalhados, como vai este nosso hoje...




Foi aí que reparei que a senhora não é que falasse mal e com erros agora, era que se passara completamente ao castelhano; longe da imersão linguística, cá temos um caso de invasão linguística... Aí sim pude já com calma acabar meu desenho sem ser interrompida pelo vazio discurso. Sei que alguma pessoa se pode sentir desiludia polo fato desta crónica não tratar de cousa nenhuma, mas é que isso foi o que obtive daquele encontro com uma conselheira que não se chamava Assunta, ora bem, repetiu tantas vezes essa palavra para justificar o que ela fazia, ou até deveria ter dito, o que não fazia... Uma última pergunta, retórica naturalmente, me assaltou: Como me fizestes isto? Como me entregastes a este mundo de loucos? Eu aqui com um legado de ouro em pó condenada a ir por caminhos lamacentos e atestados de bandidos... Desejei ser invisível.