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quinta-feira, 14 de julho de 2011

De meus infinitos...


(Ensaiando um tanka)

Quando eu me esconder de ti
é melhor que não me procures
e que nem esperes que volte

Porque mesmo que voltasse
eu seguiria escondida...

Concha Rousia

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Canção para Ulisses


Ulisses, escuta
Penélope, cansada, a sentir-se está
suas mãos impacientes já não obedecem
tecem e destecem sem mais perguntar
mensagens que nunca a ti vão chegar

Ulisses, escuta
Do cais ela observa sem poder parar
tua nau vê perder-se nesse imenso mar
guiada por cantos de irreais sereias
que por ti elas chamam e obediente vais

Ulisses, escuta
O canto te vence, e cera não tens
Penélope sabe, p'ra ouvidos tapar
nem quem te ate ao mastro dessa tua nau
bebendo seus cantos sem remédio vais

Ulisses, escuta
Perguntou Penélope hoje a suas mãos
porque desteciam mensagem e mais
e elas reponderam rompendo o tear
juntando madeiras e armando uma nau

Ulisses, escuta
Penélope prestes a ir para o mar
não teme os piratas nem os vendavais
p'ra sereia não serve lhe cansa cantar
a essas tantas almas perdidas no mar

Ulisses, escuta
se a queres achar não vás buscar no cais
as celestes velas, perdem-se no mar
ninguém pode vê-la, camuflada vai
tecendo os seus sonhos ao sol e ao luar...

Concha Rousia

O Caminho

Ergo os meus pés 
e o caminho passa
Sei que não sou eu
quem avança

Eu sempre fico
naquele inexato lugar
o caminho é que anda
ele segue para a frente
ele segue para atrás

E eu vou ficando em 
qualquer lugar
              sem saber onde

sem saber se perto
sem saber se longe estou
de onde quer que eu vá
o caminho sabe e eu não, eu não, eu não...

Concha Rousia

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Género e Saúde

(Artigo publicado no jornal 'Novas da Galiza' na seção de saúde da que sou colaboradora na área de psicologia)

A modo de introdução lembrarei aqui aqueles experimentos nos que os sujeitos experimentais eram interrogados sobre o significado atribuído a certos comportamentos de um bebé; o bebé era sempre o mesmo e só se mudava a sua roupa para que umas vezes ‘parecesse’ que era nena e outras ‘parecesse’ que era neno. Os resultados mostraram que os participantes no experimento qualificavam uma conduta de pranto como de 'tristeza' quando julgavam que o bebé era nena, e como de 'raiva' quando pensavam que era neno. Isso mesmo acontecia com outros comportamentos, assim 'gesto de força' versus 'gesto de delicadeza' etc. Desta forma as diferenças observadas pela atribuição do sexo do bebé influenciam a resposta que se dá a esse ou essa bebé; desta forma se vai orientando para que assuma os roles que irão configurando seu género, que será integrado por aqueles roles socialmente aceitáveis... Aqui todos os que temos filhas ou filhos temos um milhão de anedotas para contar. Contudo esse jeito de olhar, esses óculos parciais, são usados sempre, e por todos e todas nós em maior ou menor medida, ao longo da vida. A investigação científica mostra como as mulheres são com muita diferença, respeito dos homens, mal diagnosticadas quando padecem do coração, suas dores no peito são interpretadas como de origem psicogénica em vez de biológica, isso quando não têm que ouvir que são ‘histéricas’ (o termino ‘histérica’ aí é usado no sentido de obsessivamente preocupadas e não no seu sentido psicodinâmico). Isto acontece com muitas outras enfermidades; o problema de base está em que o homem foi tomado como modelo para estabelecer os parâmetros de normalidade e portanto também de patologia, assim como também foi nele que se mediram os efeitos dos medicamentos, e a mulher foi mais uma vez ignorada; como se a humanidade se pudesse resumir no homem. Na área da psicoterapia os dados indicam que a maioria das orientações terapêuticas nem consideram a variável "género", apenas as terapias feministas e as narrativas tomam em consideradão está variável. Um dado das investigações indica que as mulheres são interrompidas três vezes mais do que os homens em psicoterapia. Por todo o exposto ignorar o género e a sua importância, não é imparcial nem por tanto saudável, especialmente para as mulheres.

Concha Rousia

zero-quilómetro

(Amar é descobrir o zero-quilómetro do coração...)

Lembro o tempo em que meu desejo era ser grande, ser gente, crescer, furar no saber do mundo dos adultos, um dia imaginei o que seria ser da altura de um castanheiro, fechei os olhos e tentei imaginar como se veriam as cousas desde às nuvens, que era aonde chegava a coroa do castanheiro no meu olhar infantil... Nesse tempo eu, vejo isso agora, olhava só para fora, o mundo era todo fora, eu era fora também, sim, é fora que nos vamos construindo e vamos incorporando tudo, vamos guardando os rastos dentro, fabricando nossas tatuagens internas, mais ou menos permanentes...

O meu mundo de fora, hoje um mundo extinto nesse etnocídio que nos silencia, à espera apenas de que se esgote o alimento para nossas almas, nestes tempos em que não é bem visto matar corpos... Esfomear nossas almas maltratadas, nem será visto.... Que urgente era uma 'Deu-la-deu' que com a farinha que nos resta mandasse fabricar nossas bolachas, a mim hoje parece-me que deviam ser feitas de milho branco cozido no leite, com amendoim torrado e moído, talvez adoçadinhas, canjica ou mungunzá, já só bolachas feitas assim podem confundir ain da o inimigo a respeito de nossas provisões para a subsistência, para a resistência. Façamos pois nossas bolachas e atiremos-lhas ao inimigo, como eu atiro hoje este texto, faço com toda a minha força desejando que chegue bem longe...

Mas não vou continuar por aí porque o urgente hoje em mim vem-me de outros medos, medos dessa eu que não cresceu como o castanheiro que um dia lhe falara sobre nuvens e distâncias... Eu hoje estou com óculos de olhar para dentro, olhar essas cousas que foram entrando e não sei onde colocar, algumas delas eu conto aos amigos, as amigas, outras eu conto apenas a ti, meu bem, mas tem outras que nem a ti posso contar, a ti que és o ser pelo que o meu coração palpita com seu ritmo mais acompassado, e também mais descompassado... O coração é sábio, na cabeça apenas há conhecimentos uteis e inúteis, mas no coração há saber... o coração é quem descobre o sentido, o significado de tudo, e conhecer-te a ti foi essa grande descoberta, foi descobrir o zero-quilómetro do coração, do amor, da paixão, da ternura, de deus... esse o 'starting point', o lugar onde o Universo podia hoje renascer da nada, ou podia ser absorvido por um buraco negro sem padecimentos...

Mas mesmo assim o silêncio é mais alto do que podem alcançar as minhas palavras, que não furam céus nem tocam nuvens, por isso, meu bem, minha vida, deixá-me ir sem despedidas, se visito contigo esse ponto do coração, esse meu zero-quilómetro, então eu sei que não parto, eu já descobri isso, eu já sonhei isso, eu já aprendi isso, eu já esqueci isso, e agora eu escrevo isso...  

É deste púlpito em que me subo, porque sou pequeninha, que eu choro, que eu grito até libertar minha alma aprisionada entre as palavras que não são nossas, minha alma peregrina, minha alma sem destinos nem deidades para guia-la, minha alma confundida, roubada de liturgias pela Igreja opressora, pela Igreja que colonizou e esvaziou de sentido nossos ritos... Essa Igreja que ontem perdera o Códice Calistino porque não dá valor ao que é verdadeiro, essa Igreja que nos roubou de nosso mundo e nos arrebatou nossas inocentes palavras da infância, essa Igreja da que eu nem me quero lixar a falar... Mas aqui fico, sem Deus e sem consolo... É por isso que choro, é por isso que grito, e me escondo para não retornar sempre a meu zero-quilómetro...

Concha Rousia

domingo, 10 de julho de 2011

Som do abismo...

...a musica resgata-me do silêncio que rasga o ar que respiro, ela, camarada e companheira que amortece a espera, esse minha eterna espera de teu som chegando e criando em mim a primavera, nenhuma flor muda as estações tao rápido do que o teu sorriso, mesmo quando no coração entrar a chuva....

...hoje é um desses dias molhados, de sentires tortos a percorrer a alma num voar errático... a chocar com muradas, como se a alma tivesse paredes... hoje, como quase sempre, me interrogo, me interrogo sem ter à mão nenhuma resposta, sangra meu pensamento estéril, convoco as lagrimas na procura de sentir o alivio da mornura ou friagem da água, tanto faz, minha pele sem ti não sente...

...a pergunta insiste, a pergunta insiste, insiste... insiste... insiste... ela quer saber a quem procuro eu em ti, quê minha eu necessita tanto de teu abraço, que se desabraça de si para voar contigo ao abismo...

Concha Rousia


sábado, 9 de julho de 2011

Pela Memória...

(Este poema, mesmo que de minha autoria, é propriedade da Ordem de Psicologia da Galiza, para comemorar o ano 2011 como o ano pela memória...)



A Memória...

...Essa tecedeira
urdindo o futuro
no tear do presente
com fios do passado


Concha Rousia